Anne sentiu mais uma vez o frio no estômago. Disse a si mesma que não podia desistir novamente, mas a barriga continuava a dar voltas. Era terceira vez que tentava, tinha consciência disso. Deveria continuar. E deu mais um passo. Começou a suar frio. Queria fugir dali, na verdade. Ah, como queria! Mas deu mais um passo.
Anne era uma jovem inteligente, talentosa e promissora, mas não se achava tudo isso. Ao contrário, Anne via-se como uma pessoa medíocre, sem futuro, que jamais conseguia ir muito além no que desejasse fazer. Desde que se formara na faculdade, Anne trabalhava na loja do pai. O lustre de vidro e metal, tão delicado e engenhoso, obra de uma mente talentosa, ficava empoeirando na vitrine da loja de ferragens. Ela nunca teve coragem de mostrá-lo a alguém que realmente pudesse valorizar seu trabalho. E assim, ele, o lustre, e ela, a Anne, viviam escondidos entre as ferramentas de jardinagem e pás, enxadas e carrinhos para construção.
Anne deu mais um passo e lembrou-se de quando tentou uma vaga de designer de ambientes num escritório de arquitetura e construção. Sabia que, naquele momento, a vaga seria sua. Fora a melhor aluna do curso. Antes disso, ainda na infância e adolescência, tivera uma facilidade incrível em moldar os metais e outros materiais criando obras únicas e originais. Seu pai tinha enorme orgulho do que ela criava e fora o incentivador para que se expusesse o belo lustre na vitrine da loja de ferragens. Imaginava que assim serviria de incentivo para Anne perceber seu próprio talento.
Mas Anne nunca pensara como ele, nunca vira a si mesmo exatamente como o pai via. E, por isso, mesmo com seu trabalho naquele lugar, e com várias pessoas dizendo o quanto ele, o lustre, era belo, ela preferia continuar por detrás do balcão da loja apenas atendendo os clientes. Anne faltara à entrevista de empregos da vaga de designer...
E deu mais um passo.
No âmbito emocional, as coisas não caminharam muito diferentes do profissional. Anne tivera muitos namorados. Todos afinados com suas idéias, seus sonhos e seus princípios. Anne parecia ser uma menina de sorte, pois eram raros - mas, lógico, presentes - os que desacordavam, não combinavam com ela. Assim, Anne, depois de um tempo chegou "às vias de fato" e resolveu subir ao altar para se casar...
A primeira vez em que tentou realmente chegar ao altar, não passou da área dos bancos e saiu correndo igreja afora. Fora muito difícil para ela entender sua atitude, mas achava que não estava preparada para aquilo. Por isso, depois de um tempo, resolveu tentar novamente logo depois de terminar a faculdade. Talvez da primeira vez dera errado porque ainda era muito nova. E, então, reiniciou os preparativos pra uma nova cerimônia onde depositou toda sua certeza de felicidade. O dia da celebração chegou. A igreja estava cheia. Desta vez, havia muitos curiosos que ficaram sabendo de sua primeira escapada do matrimônio e, por isso, se postaram nos pesados bancos de madeira e esperaram pelo desfecho daquela história.
Lindamente vestida Anne entrou na igreja lotada e, no mesmo instante, sentiu as pernas amolecerem. O corredor até o altar parecia longo demais para ela. Até chegar lá precisava antes decidir os próximos cinqüenta ou sessenta nos de sua vida. E assim, ela viu-se dos primeiros cinco anos felizes até os últimos dez da separação. Viu-se com filhos e achou que não conseguiria ser uma boa mãe. Viu-se como a esposa de alguém e achou que não nascera para cuidar de ninguém. E viu seu futuro marido, com o estômago protuberante, sentado na poltrona - dele - na sala, vendo futebol na tevê e tomando cerveja sem sequer notá-la ao seu lado.
Anne travou antes do primeiro passo. A música parou a um sinal do maestro, e todos olharam apreensivos para ela. Anne sabia que devia continuar, mas não conseguiu. Deu a meia volta e fugiu da igreja...
Voltando ao presente, Anne pensava em tudo isso enquanto tentava chegar ao altar. Pela primeira vez havia conseguido sair da área dos bancos e estava bem perto, muito próximo mesmo de chegar a ele. Olhou novamente para o homem que escolhera para seu esposo. Ele era tão lindo, tão inteligente, tão amável e compreensivo com ela. Seu estômago embrulhou e Anne pensou nele chegando do trabalho, sequer dando-lhe um beijo, sentando nalgum lugar para tirar os sapatos e perguntando grosseiramente sobre o jantar. Era difícil, mas possível, pensar naquele lindo e garboso rapaz se tornando um insuportável ogro. E Anne não mais conseguiu andar para frente. O noivo pareceu pressentir o que aconteceria pois parou de sorrir e a olhou preocupado.
Anne nada disse a ele além de menear a cabeça, fitando-o com tristeza. Então, jogou o buquê longe, correu desembestada para a porta. Saiu da igreja e não mais voltou...
Anne poderia ser personagem de um filme de comédia, bem escrito, bem roteirizado e que nos agradasse assistir numa tarde de folga. Mas Anne é um exemplo do que a auto-sabotagem faz com uma pessoa. Muitas vezes, sentimos medo de buscar novos horizontes, medo de falharmos diante destas novas perspectivas, pois a cobrança em cima de nossos acertos acaba sendo massificante. Vivemos em uma época em que somos obrigados a nos renovarmos o tempo todo e muitas vezes sentimo-nos inaptos a correspondermos ao que esperam de nós. E assim, fantasiamos desfechos ruins, antecipamos situações com finais infelizes. E, depois de um tempo agindo assim, podemos correr o risco de nos acostumarmos a fugir, sempre, daquilo que esperamos que dê errado.
Dessa forma, devemos parar e refletir sobre quem somos e o tipo de vida que queremos para nós. Porque ser feliz é buscar por caminhos que rompam com o que nós vivemos, é nos aventurarmos a sermos diferentes do que rotineiramente somos, é entendermos que não podemos e nem devemos ter medo de errar. Errar é humano e intrínseco para que possamos ganhar experiência. Além disso, não devemos temer tentar, pois acordar de amanhã e sair da cama é uma tentativa de fazer aquele dia específico ser diferente, ser novo.
Por isso, cada um de nós deve sempre lembrar que nunca é tarde para errar - e aprender -... mas também nunca é tarde demais para se tentar, mais uma vez.
Texto livremente baseado no filme "Noiva em Fuga".
C.V.